Experiência de fé exige formação em comunidade
No meu artigo anterior – o primeiro deste ano – apresentei uma breve reflexão sobre a importância de os presbíteros, nas homilias em particular, proclamarem a esperança para além das críticas e até mesmo denúncias que precisam fazer a respeito das incoerências que, com frequência, estão presentes no comportamento dos fiéis. Agora, penso que devo dizer algo sobre a parte que toca a nós, fiéis leigos, nessa dinâmica.
Pensando nisso, muitas questões me vêm à mente, mas a primeira delas diz respeito ao tipo de compromisso que assumimos com a nossa fé. Aqui, naturalmente, é preciso fazer a distinção: embora, por vocação, todo cristão seja missionário, não significa que todos devemos nos engajar nos trabalhos pastorais, inclusive porque a evangelização precisa ir além dos espaços especificamente eclesiais e chegar à realidade cotidiana das pessoas, isto é, nos ambientes familiares, de trabalho, de lazer e assim por diante.
O compromisso com a fé significa assumir uma visão e postura coerente com o Evangelho, antes de tudo. É claro que isso deveria nos levar a buscar na Igreja e em tudo aquilo que ela nos oferece para a nossa formação e orientação espiritual e humana uma fonte confiável que nos ajuda a dar conta desse compromisso. Na prática, no entanto, como bem o sabemos, não é o que ocorre na grande maioria das vezes. Estão aí as redes sociais para demonstrar a fragilidade do compromisso, do entendimento e da formação na fé e doutrina de muitos que se dizem cristãos católicos. É triste, para dizer o mínimo.
A vivência cotidiana, radical e coerente das palavras do Evangelho, sobretudo no que diz respeitos às relações humanas, deveriam ser mais do que suficientes para nos salvar dessa lacuna que nos distancia de um autêntico compromisso com Jesus no que, afinal de contas, consiste a experiência de fé.
Mas, certamente, há uma limitação muito grande que, aliada à falta de vivência, se superada, nos ajudaria a sermos melhores cristãos: a nossa formação religiosa. Hoje, dar conta dessa demanda poderia até ser mais fácil, já que temos a Internet e as tecnologias e ali podemos encontrar de tudo e, em geral, gratuitamente. Bem, posso parecer “dinossáurico”, mas creio que o perigo está justamente aí. A formação religiosa não pode se limitar a fragmentos de mensagem que colhemos cotidianamente nas redes sociais, inclusive porque muitas fontes que se dizem cristãs não são totalmente confiáveis nesse sentido.
Como não dá e não é o caso de todos os fiéis cursarem teologia, penso que precisamos (re)encontrar outros meios para dar conta de cobrir essa nossa lacuna. Não tenho receita, mas estou convicto de que essa experiência formativa tem que ser comunitária, como tudo na vida da Igreja. Isso não nos isenta de erros, mas possivelmente nos ajuda a nos aproximarmos mais da sabedoria do Evangelho, porque – em tese – aquele que nos ensina, o nosso mestre, não é essa ou aquela pessoa, mas é o próprio Jesus presente espiritualmente entre aqueles que se reúnem em seu nome.
Além disso, a metodologia de produção de conhecimento que a partilha e o diálogo proporcionam nos ajuda a compreender com mais clareza e segurança aquilo que de fato ensina o Evangelho e a Igreja por meio da sua Tradição e Magistério. Nesse sentido, as comunidades – na medida de suas possibilidades – devem (re)investir em espaços de formação que, na medida do possível, possuam uma abordagem acessível nos âmbitos da exegese bíblica, da formação teológica e do pensamento da Igreja.
Para a nossa cultura brasileira, aparentemente pouco afeita ao estudo, esse parece ser um desafio bem grande. Mas precisamos insistir nisso. Certamente devemos seguir nos servindo da Internet, mas com critério, fazendo dela o suporte adequado para a nossa reflexão que, insisto, precisa ser feita em comunidade. Por isso, devemos reencontrar nos próprios espaços institucionais da Igreja a fonte privilegiada da nossa formação na fé. Tenho convicção de que isso nos ajudará a responder com mais serenidade e coerência à missão de proclamar a esperança que é confiada a todo aquele que deseja ser fiel a Jesus.
Luis Henrique Marques
Jornalista, historiador e licenciado em Letras Português-Espanhol. É mestre em comunicação e doutor em história pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), este último com estágio feito pela Universidad de León (Espanha). Tem pós-doutorado em comunicação pela Faculdade Casper Líbero, de S. Paulo. É concluinte do curso de bacharelado em Teologia pelo Centro Universitário Claretiano. É membro do Grupo de Educomunicação e Pesquisa da SIGNIS Brasil e do Grupo de Pesquisa Comunicação e Religiões da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares de Comunicação (Intercom). É editor-chefe da revista Cidade Nova e coeditor do portal Ekklesía ALC, coordenador nacional e membro da comissão internacional da rede NetOne, do Movimento dos Focolares. É ex-editor-chefe da Agência SIGNIS.
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