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Fraternidade como critério de notícia

Há 3 horas
Foto: Banco de Imagens Canva Pró
Foto: Banco de Imagens Canva Pró

 Um profissional de imprensa, um comunicador popular ou qualquer cidadão que divulga uma notícia parte sempre de um ou mais critérios. Ele pode fazer isso de forma consciente ou involuntária. Entre esses critérios os mais comuns são o inusitado, o conflito, a atualidade, a proximidade, o apelo emocional, a proeminência de uma personagem e assim por diante. Com frequência, esses critérios são movidos pelo desejo de impactar, quando não, de chocar o público que terá acesso à notícia.

            De certo modo, isso é legítimo, se considerarmos que a intenção daquele que informa é chamar a atenção e mobilizar seu público ante o fato ou tema abordado. Por outro lado, é muito comum que a divulgação de uma informação seja feita apenas com a intenção de chocar, sem qualquer interesse real em prestar um serviço à audiência. Nesses casos, com frequência, o que move o difusor da informação são os interesses comerciais, político-ideológicos ou o simples desejo de colocar-se em evidência. De fato, a sensação de poder que o domínio sobre certa informação exerce desde sempre é um fato real. Isso, a propósito, entre outras razões, tem servido de motivação para a ampla difusão de fake news nos dias atuais.

            O fato é que, para além de fatos e temas em si, há sempre uma motivação que leva a definir o que deve ou não ser notícia. É isso que, afinal de contas, tem-se como princípio para se escolher, no infinito universo dos acontecimentos, o que merece ganhar os espaços das mídias tradicionais, sociais ou simples grupos de WhatsApp.

            Partindo, pois, desse pressuposto inegável, eu gostaria de propor ou de ressaltar um critério que nem sempre é perceptível entre aqueles que os comunicadores e cidadãos em geral utilizam para divulgar suas informações. Partindo da minha experiência como editor-chefe da revista Cidade Nova, uma expressão do Movimento dos Focolares, eu proponho a fraternidade como critério de construção da notícia.

            Por fraternidade, entendo aqui que, como filhas e filhos de Deus, aquilo que une todas as pessoas, independentemente de sua etnia, cultura, religião, condição social etc. Porque filhos do mesmo Pai, somos irmãos, da onde vem o adjetivo “fraterno”. Essa convicção deveria nos mobilizar à fraternidade, a relações fraternas, em que a dignidade do outro enquanto pessoa é respeitada acima de tudo. Assim, mesmo que o meu semelhante faça ou diga algo que, por razões claras, seja motivo de crítica, ele merece o meu respeito, a minha consideração. Isso significa, por exemplo, não tratá-lo com ironia, violência ou qualquer outra atitude e palavras que o ofendam. O que deve ser objeto de crítica são os gestos, as atitudes e comportamentos.

            Mas a fraternidade pode ir além disso, isto é, do simples respeito e tolerância. A visão fraterna nos ajuda a reconhecer os valores positivos que o outro possui: seus talentos, seus dons e gestos de verdadeira bondade, beleza e sabedoria. Partindo dessa perspectiva, não é difícil entender a fraternidade como critério de notícia. Ela nos ajuda a identificar posturas e ações que produzem um mundo melhor, porque fundamentalmente colocam o ser humano como objetivo central. Mais ainda: tais gestos, atitudes e comportamentos geram a fraternidade, as relações de harmonia e paz de que todos precisamos.

            Creio que, embora existam bons exemplos de prática comunicacional que parte da fraternidade como critério de notícia, há muito o que ser feito nesse sentido. Nós de Cidade Nova, na medida em que nos pautamos por essa perspectiva, temos nos esforçado por fazer isso. Não à toa o lema do nosso periódico é “fraternidade em revista”.

            Como acenei antes, isso não significa deixar de fazer a crítica necessária, menos ainda de “pintar o mundo de cor de rosa”, ignorando os problemas. Não se pode pretender um mundo fraterno se não superarmos os nossos limites, se não corrigimos os nossos erros e enfrentamos os nossos problemas. Mas creio que é preciso valorizar mais esse enfoque positivo na construção da notícia. Todos precisamos disso. Esses são os sinais de esperança que estimulam a desejar e batalhar por um mundo melhor.

Sobre o autor

Luis Henrique Marques

Jornalista, historiador e licenciado em Letras Português-Espanhol. É mestre em comunicação e doutor em história pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), este último com estágio feito pela Universidad de León (Espanha). Tem pós-doutorado em comunicação pela Faculdade Casper Líbero, de S. Paulo. É concluinte do curso de bacharelado em Teologia pelo Centro Universitário Claretiano. É membro do Grupo de Educomunicação e Pesquisa da SIGNIS Brasil e do Grupo de Pesquisa Comunicação e Religiões da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares de Comunicação (Intercom). É editor-chefe da revista Cidade Nova e coeditor do portal Ekklesía ALC, coordenador nacional e membro da comissão internacional da rede NetOne, do Movimento dos Focolares. É ex-editor-chefe da Agência SIGNIS.

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