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Ainda antes do problema da IA

Há 16 horas
Foto: Canva Pró
Foto: Canva Pró

Não há razões para não considerar a inteligência artificial (IA) a bola da vez. Já sofremos as consequências do seu uso, para o bem e para o mal, a despeito do fato de que há ainda muita coisa a ser descoberta e, por conseguinte, a ser discutida sobre esse assunto. Nesse sentido, faz muito bem a Igreja antecipar-se ao abordar essa pauta, ao menos, naquilo que é possível refletir sobre isso neste momento.

            No entanto, tomando como base as relações interpessoais mediadas pelo uso das mídias, sobretudo das redes sociais e grupos de WhtasApp, penso que precisamos dar alguns passos atrás. Olhando especificamente para a realidade das nossas comunidades eclesiais no Brasil e para outras expressões da Igreja como os movimentos e novas comunidades, assim como tendo presente a quantas anda o acesso às novas tecnologias em diferentes regiões do país, não podemos limitar a reflexão comunicacional ao uso da IA.

            Basta pensar, por exemplo, que o acesso regular à internet não é uma realidade em todos os cantos do país. Além disso, problemas de comunicação não existem apenas porque usamos recursos da inteligência artificial. Há questões éticas e técnicas fundamentais que ainda não resolvemos e que são bem anteriores ao avanço da IA.

            É o que ocorre quando observamos comportamentos básicos que se mantêm, mas cruciais no sucesso ou fracasso do processo comunicativo. Exemplo: recebemos mensagens e não lemos nem compartilhamos, quando necessário. Em contrapartida, inundamos os celulares com mensagens de pouca utilidade, quando não, danosas para as nossas relações. Pior ainda quando compartilhamos textos, imagens e vídeos sem qualquer filtro e, muitas vezes, não passam de fake news. É claro que, em alguns casos, a IA contribui para ampliar e aprofundar certos problemas. Mas há questões de postura que são anteriores a ela.

            Por isso, em diferentes grupos eclesiais em que tenho uma atuação especialmente voltada à comunicação, tenho insistido na já antiga, mas não totalmente considerada importância da educação para a mídia. Não bastam promotores, canais e mensagens bem elaborados, eticamente adequados e de utilidade pública. Sem receptores críticos e conscientes, não há comunicação que sobreviva ao fracasso. A nossa responsabilidade da comunicação não se dá porque nos tornamos comunicadores potenciais, graças ao uso das novas tecnologias. Ela começa sobre como recebemos as mensagens, isto é, se a recebemos, como as lemos, se as compartilhamos e assim por diante.

            Então, ainda que seja necessária uma evidente atenção ao tema da IA, é preciso não se deixar seduzir por discursos vanguardistas – que, aliás, nem sempre vão além do óbvio – e ignorar que ainda não demos conta de questões elementares no que diz respeito à comunicação. O ativismo frenético, a superaceleração e o uso de novas tecnologias e ferramentas não são resposta para todos os problemas que envolvem a comunicação, em especial, aquela praticada no âmbito eclesial.

            A comunicação é fundamentalmente uma experiência humana, depende da orientação ética que lhe damos. Prescindir disso é insistir em erros, é colocar para debaixo do tapete equívocos contra os quais não assumimos a disciplina suficiente para enfrentá-los. Depositar exclusivamente na tecnologia a justificativa ou a resposta para aquilo que é responsabilidade essencialmente humana não nos fará avançar de modo efetivo nos processos comunicativos.

Sobre o autor

Luis Henrique Marques

Jornalista, historiador e licenciado em Letras Português-Espanhol. É mestre em comunicação e doutor em história pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), este último com estágio feito pela Universidad de León (Espanha). Tem pós-doutorado em comunicação pela Faculdade Casper Líbero, de S. Paulo. É concluinte do curso de bacharelado em Teologia pelo Centro Universitário Claretiano. É membro do Grupo de Educomunicação e Pesquisa da SIGNIS Brasil e do Grupo de Pesquisa Comunicação e Religiões da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares de Comunicação (Intercom). É editor-chefe da revista Cidade Nova e coeditor do portal Ekklesía ALC, coordenador nacional e membro da comissão internacional da rede NetOne, do Movimento dos Focolares. É ex-editor-chefe da Agência SIGNIS.