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Sobre guetos, bolhas e comunidades

Há 1 mes
“Bolhas identitárias” costumam navegar na contramão do processo de globalização
“Bolhas identitárias” costumam navegar na contramão do processo de globalização (foto por Reconta Aí)

No atual contexto histórico, três enfoques distintos nos ajudam a entender o surgimento do que poderíamos chamar de “bolhas identitárias” (entre outras possíveis). De início, a economia globalizada – tanto extensiva quanto intensivamente – incorpora vorazmente novos recantos do planeta. Depois, para além do aspecto econômico, de um ponto de vista sociopolítico, movemo-nos hoje em meio a um estado de crise/caos/barbárie/violência, provocado especialmente por governos de extrema-direita, na linha de um renovado populismo nacionalista. Por fim, a combinação dos fatores precedentes associada à pandemia acabou por escancarar e agravar o individualismo exacerbado, marca registrada da modernidade tardia ou pós-modernidade.

Em razão disso, semelhantes “bolhas identitárias” costumam navegar na contramão do processo de globalização. São “bolhas”, na exata medida em que se encerram hermeticamente sobre si próprias, isolando-se ao mesmo tempo de tudo e de todos; são “identitárias”, enquanto utilizam os valores e expressões culturais (ou religiosos) para se proteger das eventuais hostilidades que poderão chegar do lado de fora, buscando contemporaneamente maior coesão interna frente às possíveis hostilidades. Nessa perspectiva, não seria exagero afirmar que a sociedade hodierna tende a converter-se num gigantesco arquipélago de ilhas justapostas, coexistentes, cerradas, e por isso mesmo praticamente incomunicáveis. De forma paradoxal, tanto mais incomunicáveis quanto mais desenvolvidos e sofisticados se fazem os meios de comunicação social; tanto mais distantes umas das outras, quanto mais próximas entre si no tempo e no espaço.

Aquém das relações socioeconômicas ou político-culturais mundializadas, as bolhas se formam a partir dos laços mais elementares, primários; quase sempre numa resistência tenaz e frontal à tendência de estandardização planetária. Permanecem umbilicalmente vinculadas às raízes locais, territoriais, às vezes tribais – contra o movimento de uniformização universal. Nessa redução a uma espécie de tabula rasa, ganham particular relevância as ligações familiares, de parentesco ou de compadrio, como também os costumes, a culinária e as singularidades de cada povo, nação, etnia ou cultura. É como regressar ao cara-a-cara do universo rural, no momento em que a sociedade se urbaniza aceleradamente.

Um clima de recíproca agressividade de ordem externa, acrescida de polarizações extremadas entre um “nós” conhecido e confiável, de um lado, e um “eles” desconhecido e suspeito, de outro, pavimenta um terreno próprio para a formação de guetos, contrapostos às comunidades. Terreno minado e ao mesmo fértil para o nascimento e desenvolvimento de erva daninha. Ou melhor, terreno fértil porque minado com as bombas ocultas da intolerância, da discriminação e da xenofobia. Muros em lugar de pontes se erguem e se multiplicam, afastando cada vez mais as bolhas umas das outras. E essas, ao mesmo tempo que, dentro do próprio ambiente, respiram um ar político, ideológico e religioso comum, destilam e respiram igualmente o oxigênio tóxico nos eventuais contatos com o mundo exterior.

Desse estado de coisas, decorre o desafio de superar o enorme contraste entre os de dentro e os de fora. O desafio envolve as relações interiores de cada ilha, simultânea à transformação do arquipélago isolado num cosmos de relações sadias e saudáveis. Nem o arquipélago de bolhas separadas, nem a uniformidade redutora. Dessa passagem depende a justiça e a solidariedade; e a estas, está subordinada a paz, se a queremos sólida e duradoura. Descendo a um nível mais concreto, trata-se de passar do gueto à comunidade. Esta mantém as portas abertas à pluralidade, ao passo que aquele tende a fechar-se sob a casca qual caramujo, voltando-se sobre o próprio umbigo. Os extremos se tocam: gueto e estandardização geram tédio. A comunidade desvela o horizonte do mútuo intercâmbio. Neste, as diferenças e identidades, longe de nos isolar e nos tornar mais pobres, constituem, ao contrário, tesouros “ocultos no campo” e que se prestam ao encontro, ao confronto, ao diálogo e ao enriquecimento recíproco.

Sobre o autor

Pe. Alfredo J. Gonçalves

Missionário scalabriniano, atua no serviço dos migrantes e refugiados, no momento exercendo a função de vice-presidente do Serviço Pastoral dos Migrantes (SPM), ligado à CNBB.

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